Interior de um hammam tradicional em Marraquexe, Marrocos, com azulejos e mármore aquecido

O meu primeiro hammam em Marraquexe (e o que nunca me contaram)

Last Updated on 05/07/2026 by Marlene Marques

Levo grupos a Marrocos há vários anos. Conheço as ruas da medina melhor do que algumas das minhas cidades em Portugal, sei onde comprar as melhores especiarias, que horas evitar a Praça Jemaa el-Fna, como negociar nos souks sem perder a sanidade. E sempre, sempre, digo a quem viaja comigo a mesma coisa: façam um hammam em Marraquexe. É obrigatório. É Marrocos na sua forma mais pura.

O problema? Eu nunca tinha feito um.

Desta vez, decidi que estava na hora. Não por nenhuma razão em especial. Talvez por me ter cansado de recomendar algo que não conhecia por experiência própria. Ou talvez por pura curiosidade que, por alguma razão, nunca tinha conseguido transformar em acção. Fosse como fosse, reservei no hotel onde estava alojada e lá fui.

O que se seguiu não foi bem o que eu esperava.

Hammam: muito mais do que um banho turco

Mas antes de te contar a minha experiência… o que é, afinal, um hammam? O termo “banho turco” é o que aparece na maioria dos guias de viagem, mas é, curiosamente, uma designação que não faz grande justiça ao que é o hammam em Marrocos. As origens deste ritual são muito mais antigas e mais complexas do que o nome sugere.

A palavra hammam vem do árabe e significa, literalmente, “casa de banho”. A prática herdou a estrutura das antigas termas romanas, que consistia num sistema de salas a temperaturas progressivamente mais elevadas que os romanos espalharam por todo o Império e foi depois adaptada e profundamente integrada na cultura islâmica.

O Profeta Maomé, no século VII, defendia a pureza do corpo como extensão da pureza espiritual, e os hammams passaram então a surgir em todo o mundo islâmico, muitas vezes mesmo ao lado das mesquitas. Em Marrocos, o ritual tornou-se ainda mais enraizado pela tradição maliquita, que dá particular ênfase à purificação, e os hammams foram durante séculos não apenas locais de higiene, mas centros sociais, especialmente para as mulheres, que ali se encontravam, partilhavam notícias, celebravam momentos de vida.

Hoje, com casas de banho privadas em quase todos os lares marroquinos, o papel social do hammam mudou. A tradição não desapareceu, mas adaptou-se. Os hammams públicos continuam a funcionar nas medinas, frequentados pelos locais, paralelos a uma versão mais pensada para os turistas: spas, riads e hotéis que oferecem o mesmo ritual, mas com mais conforto e menos imprevistos.

Dois tipos de hammam: qual escolher?

Em Marraquexe, existem basicamente duas opções para experimentar este ritual.

Os hammams tradicionais são os que os locais frequentam. Consistem em casas de banho públicas encaixadas nas ruelas da medina, sem grandes indicações para turistas, onde a experiência é completamente autêntica, mas também mais exigente. Tens de levar os teus próprios produtos: o sabão preto, a luva de esfoliação kessa, a ghassoul (argila). Nem todos aceitam turistas e, sem saber árabe, pode ser difícil entender o que se passa ou o que fazer.

A segunda opção — que foi a minha — são os spas em hotéis, riads ou centros de bem-estar que oferecem o hammam num formato mais familiar. Tudo é fornecido, há uma terapeuta que faz o processo e o ambiente é controlado. Perde-se alguma da crueza autêntica do hammam público, mas ganha-se conforto e acessibilidade, especialmente para quem nunca fez nenhum.

Nenhuma das opções é errada. Tudo depende do que procuras e do teu nível de conforto com o desconhecido.

O que acontece dentro de um hammam em Marraquexe (sem filtros)

Quando entrei, calçado e expectativas deixadas à porta, percebi rapidamente que isto não ia ser uma massagem com velas aromáticas e música ambiente. O quarto estava quente. Muito quente. O mármore onde me deitei estava quente. O ar estava quente. A ideia, percebi depois, é exatamente essa: o calor dilata os poros e prepara a pele para absorver tudo o que vem a seguir.

O processo tem várias etapas. Primeiro, a água quente — bastante quente, diga-se — que é despejada sobre o corpo para começar a amolecer a pele. Depois vêm as argilas e o ghassoul, uma argila marroquina com propriedades que limpam sem agredir. Há um momento com o sabão preto tradicional. Cada etapa tem a sua função e a terapeuta vai fazendo o ritual com uma rotina que parece ter sido feita centenas de vezes… porque foi.

E depois chega a esfoliação.

Fiz massagens ao longo de toda a minha vida. Prefiro sempre o lado relaxante, suave. Não sou do tipo que pede para “tirar os nós”. Mas o hammam não é uma massagem. A luva kessa é áspera por design, e a esfoliação é profunda, intencional, quase desconcertante para quem não está habituada, como foi o meu caso. Não é dolorosa, mas é muito intensa. A sensação é de que alguém está literalmente a raspar a pele, o que, de certa forma, é exatamente o que acontece. A pele morta, essa que acumulamos sem saber que existe, sai em rolos visíveis.

Chamei-lhe queijo ralado na minha cabeça. Divertiu-me e assustou-me em simultâneo.

Fizeram também um tratamento de cabelo, algo que não esperava e que foi bem-vindo. E nas versões mais completas do hammam em spas — não foi o meu caso — a sessão termina com uma massagem relaxante que deve fazer uma diferença considerável.

O que ninguém te avisa antes de entrar

Que o calor é real e constante. Não é o tipo de calor de uma tarde de verão. É um calor fechado, húmido, que não alivia. Para quem costuma ter a tensão baixa ou é mais sensível a variações de temperatura, vale a pena estar preparada para sentir alguma tontura, especialmente no início. Não é razão para desistir, mas é razão para ir com calma e dizer à terapeuta se precisas de uma pausa.

Em relação à roupa: a resposta honesta é que não precisas de grande coisa. No hammam onde fui, ofereceram cuecas descartáveis… e foi tudo. Nada de fato de banho nem roupa específica. Se fizeres num hammam que não forneça roupa descartável, levar um fato de banho simples é suficiente, ou umas cuecas que não te importes de molhar.

Uma última nota: o hammam não é uma experiência de spa convencional. Não há murmúrios suaves nem ambiente de retiro. É um ritual que pode, em parte, soar bastante físico e direto. Mas é exatamente isso que o torna genuíno.

Vou repetir sempre que vier a Marrocos?

Não. Provavelmente não.

Gostei, considerando a intensidade da esfoliação. Mas não saí de lá a pensar que tinha encontrado o meu ritual de bem-estar preferido. Saí a pensar que foi uma experiência que valeu a pena ter feito, que me ensinou algo sobre Marrocos que nenhum guia me tinha ensinado, e que a minha pele estava, nesse momento, no melhor estado em que alguma vez a tinha sentido. Macia, hidratada, leve. Uma sensação que nenhum creme ou esfoliante de casa consegue replicar.

Continuo a recomendar a quem visita Marrocos pela primeira vez? Sim, sem hesitar. Mas agora recomendo com mais honestidade, porque sei o que há lá dentro. E isso faz toda a diferença.

Agora tu: já experimentaste alguma vez fazer um hammam? O que achaste?


Notas de Viagem

Duração do ritual: entre 45 minutos e 1h30 dependendo do pacote escolhido.

Onde fazer: podes optar por hammams tradicionais na medina (mais autênticos, precisas de levar os teus produtos) ou spas em hotéis e riads (mais acessíveis para principiantes).

O que levar para o hammam tradicional: luva kessa, sabão preto, ghassoul, toalha.

O que levar para o spa/hotel: normalmente nada; tudo é fornecido, mas confirma antes.

Roupa: cuecas descartáveis são frequentemente fornecidas. Em alternativa, leva um fato de banho simples.

Tensão baixa ou sensibilidade ao calor: vai com calma na fase de aquecimento e avisa a terapeuta.

Preço médio: hammam público desde 2-5€; spas e hotéis entre 30-80€ dependendo do pacote.

Melhor época para Marraquexe: de março a maio ou de setembro a novembro, para temperaturas mais amenas.

Alojamento: pesquisa riads com hammam incluído para uma experiência mais integrada.

Seguro de viagem: sempre Heymondo para Marrocos.

eSIM e conectividade: Holafly funciona bem em Marrocos.

Dica final: reserva o hammam para o fim do dia. Vais sair tão relaxada que não vais querer fazer mais nada.


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