
Há mercados que apenas vendem. E há mercados que tratam os seus produtos com todos os sentidos. O Mercado de San Miguel, em Madrid, é um dos segundos. Cheguei lá ao final da tarde, quando a cidade abrandava o ritmo e as luzes do mercado já brilhavam contra o céu que começava a escurecer. O que encontrei foi um espaço que nunca pára e muda de pele entre o dia e a noite.
O ar trazia um cheiro denso, quase excessivo. Queijo curado, presunto, azeitonas em salmoura, vinho servido em taças pequenas. Tudo ao mesmo tempo, sem filtros, sem desculpas. Passei pelos primeiros metros da entrada e percebi que este é um sítio para conhecer sem pressa.
A estrutura de ferro forjado e vidro abre-se logo na Praça de San Miguel, ao lado da Plaza Mayor. É bonita demais para ser apenas funcional. Parece uma estufa vitoriana cheia de gente e de sabores em vez de flores. Dentro, as bancas distribuem-se num labirinto ordenado de tapas, vinhos e conservas.
Caminho devagar. Há turistas, sim, mas também há madrilenos de pé nos balcões altos, a pedir “una caña” e tapas enquanto conversam alto e gesticulam. São eles que me guiam. Paro onde eles param.

Foi num balcão no lado esquerdo que provei o primeiro queijo. Uma senhora de cabelo apanhado e sorriso rápido cortou-me uma fatia de manchego curado, sem perguntar se eu queria comprar. “Prueba”, disse ela, e entregou-me o pedaço como quem oferece um segredo. O queijo era seco, com cristais de sal que estalavam entre os dentes, e um travo que fica. Logo a seguir, presunto ibérico de bolota, cortado tão fino que quase se dissolve na língua. Gordura e doce. É assim que Espanha sabe.
Continuo, mas agora já com fome. As cores começam a competir pela atenção: azeitonas gordas em tons de verde e preto, pimentos del piquillo reluzentes do azeite, anchovas dispostas como pequenas obras de arte. Há uma estética aqui que não é acidental. Cada banca é uma composição, cada tapa é pensada ao milímetro.



Ao fundo, os copos de vermute e as taças de vinho. Escolho um copo de sangria tinta, servida fresca e com muita fruta. Três euros. Bebo ali mesmo, de pé, encostada a uma coluna de ferro, a ver o mercado ganhar ritmo com o cair da tarde. O sabor é frutado, com um travo que persiste.
É aqui, naquele espaço elegante e barulhento, que Madrid deixa de ser um postal e passa a ganhar corpo. Um lugar que respira, que sua, que vive sem esperar por ninguém.
Saio uma hora depois, sem comprar nada para levar, mas com as mãos ainda pegajosas das azeitonas e o sabor do presunto ainda presente. Às vezes, viajar é isto mesmo. Deixar que um mercado te alimente de formas diferentes das que estás habituado.
Notas de Viagem
Nota importante
O Mercado de San Miguel encontra-se temporariamente encerrado para obras de renovação. Antes de planeares a visita, confirma online a data de reabertura ou nas redes sociais do mercado.
