Nunca surfei Supertubos.
Vou a Peniche há anos, sobretudo no inverno, quando o mar na minha zona está grande demais e Peniche continua a funcionar. Já surfei a Baía em quase todas as configurações possíveis, já surfei o Molhe Leste, já passei manhãs inteiras no Lagido. Nunca remei para a onda que puxa o mundo inteiro para aqui uma vez por ano quando a prova da World Surf League chega à cidade.
Não digo isto para ser modesta, mas, sim, porque sei ler o mar e porque tenho completa consciência do meu surf. Esta é a razão pela qual este artigo existe, porque a maior parte do que se escreve sobre surfar em Peniche põe uma fotografia de um tubo em Supertubos no topo e três linhas abaixo a mandar-te para uma escola de surf. As duas coisas não encaixam, e ninguém diz porquê.
A etapa de 2026 mudou

Em julho, a World Surf League anunciou a entrada do Cloud 9, em Siargao, nas Filipinas, no calendário do Championship Tour. A prova foi acrescentada como garantia de que a época chega ao mínimo de 12 eventos caso o Surf Abu Dhabi não se possa realizar, devido à incerteza geopolítica na região.
O Abu Dhabi não foi cancelado. Passou para 25 a 29 de novembro, e o Cloud 9 ficou entre 31 de outubro e 10 de novembro.
Para abrir espaço no calendário, a prova de Peniche recuou seis dias. Passa a realizar-se entre 16 e 25 de outubro, e é agora a etapa 10 de 13.
O que isto significa na prática: Peniche continua a ser etapa de época regular, com o field completo. As duas seguintes já são de pós-época, com field reduzido. Ou seja, todos os surfistas do circuito vão estar em Supertubos, e vão dar tudo por tudo para garantir lugar na pós-época e melhorar as contas do título.
Se vais para ver, isto é o ideal. Mas se vais para surfar, escolheste a pior semana do calendário, e já lá vamos.
Supertubos: a onda da transmissão e a onda que vais encontrar
Supertubos rebenta sobre um banco de areia raso, muito perto da praia, e forma tubos rápidos e curtos. Não perdoa hesitação. Quando está boa, a decisão de remar acontece em menos de um segundo, e a alternativa a acertar é ir ao fundo, em pouca água.
Depois há o lineup. Nos dias em que Supertubos funciona a sério, a água está ocupada por bodyboarders locais e por surfistas muito acima da média, gente que conhece o banco de areia melhor do que tu conheces a tua praia de casa. É uma onda clínica, no sentido em que não há espaço para experimentar. Ou sabes o que estás a fazer, ou estás a ocupar o lugar de alguém e a criar um problema.
É por isso que não remo para lá. Não é uma onda que esteja dentro daquilo que consigo fazer bem, e ir para a água sabendo isso é falta de respeito pelo sítio e pelas pessoas que lá estão.
Digo isto com alguma convicção porque me parece a informação mais útil que te posso dar sobre Peniche: a onda que te vendeu o destino provavelmente não é para ti. Mas, calma, isso não estraga a viagem, apenas muda o teu mapa.
Onde surfo mesmo em Peniche
Peniche é uma península. É essa a razão real pela qual a vila se tornou o destino de surf mais fiável de Portugal, e não a onda do campeonato. Com o swell e o vento a entrarem de várias direções, há quase sempre um cantinho a funcionar quando tudo o resto está fechado.
A Baía

É onde passo mais tempo. O formato da baía faz com que haja sempre um lugar surfável, e o trabalho é escolher o sítio certo em função do swell e do vento nesse dia. Nunca é o mesmo pico duas vezes.
Da última vez que lá fui, encontrei um pico em que o vento e a direção da ondulação estavam a desenhar uma esquerda e uma direita quase perfeitas. Costumo chegar cedo para fugir às escolas, mas venho da Ericeira, por isso há sempre alguém que chegou antes de mim.
Não foi uma sessão tranquila, e raramente é. Tive de gerir as ondas com outros surfistas, alguns dos quais parecem não conhecer as regras de prioridade, ou fazem-se de desentendidos. Acontece muito.
Mas continuo a voltar à Baía por uma razão simples: mesmo quando o pico principal está demasiado cheio para valer a pena insistir, encontro sempre uma onda ao lado onde me divertir. Poucos sítios em Portugal te dão essa alternativa no mesmo areal.
A Prainha, ao lado da ilha do Baleal

Mais abrigada, com menos consequência. É onde vou quando quero surfar sem estar a gerir risco, e é também onde mandaria alguém que ainda está a ganhar horas de água mas já não quer estar numa aula.
Lagido

Outro registo. Fundo diferente, ondas mais definidas, e um lineup normalmente mais exigente do que o da Baía. Vale a pena quando as condições apontam para lá.
Não é sítio para quem está a aprender. Precisas de já ter nível para entrar no Lagido, e digo isto sem rodeios porque é o tipo de pico onde a diferença entre estar preparado e não estar se paga depressa.
Molhe Leste
Fica ao lado de Supertubos e é o mais próximo que estou de surfar naquela zona da vila. Já lá surfei, mas não é uma praia para ir sem olhar primeiro. Para além de que o crowd composto em grande parte por surfistas e bodyboarders locais torna a experiência ainda mais desafiante.
Quando ir e quando não ir

O outono e o inverno são a melhor época para surfar em Peniche com tamanho e consistência. É quando o Atlântico trabalha e quando a península mostra a sua vantagem: funciona com combinações de swell e vento que deixam metade da costa até Lisboa sem nada.
O problema é que toda a gente sabe isto. Nos dias de inverno em que Peniche é a única coisa a funcionar, o crowd aparece todo ao mesmo tempo, e não é crowd de iniciados. É gente que conduziu uma hora à procura da mesma onda que tu.
A primavera e o verão dão mar mais pequeno e mais previsível, melhor para quem está a começar, com a contrapartida de as praias estarem cheias.
A semana a evitar, se o objetivo é surfar, é a da etapa do WCT. Nessa altura, a zona de Supertubos está condicionada, a vila enche, o estacionamento desaparece e os picos alternativos absorvem toda a gente que não pode entrar na área da competição. Vai nessa semana se quiseres ver o campeonato. Se quiseres surfar, vai antes ou depois.
O crowd é o problema, não a onda
Peniche vive de surf o ano inteiro, e isso significa uma densidade de surf camps e escolas que enche os lineups de gente a fazer aulas. Não é uma crítica às escolas, é uma realidade logística que tens de contar no teu planeamento.
Duas consequências práticas. A primeira: se já surfas, evita os picos onde as escolas estão, sobretudo a meio da manhã. A segunda: se estás a começar, escolhe uma escola que te leve para fora do aglomerado em vez de te pôr no meio dele, porque aprender rodeado de vinte pranchas de espuma é aprender a desviar, não a surfar.
Há ainda a questão das prioridades. Num lineup onde muita gente está a começar, e onde outra parte finge não saber as regras, vais ter de surfar com a cabeça levantada e todos os sentidos apurados.
E vale a mesma regra de sempre, que em Peniche conta mais do que na maioria dos sítios: entra na água no pico que corresponde ao teu nível, não no pico que corresponde ao teu ego.
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Onde ficar
Não te vou fazer a review de hotel nenhum em Peniche, porque nunca lá dormi. Vivo na Ericeira e vou e volto no mesmo dia, sempre de carro.
Se precisas de ficar, os dois nomes que aponto são o Star inn Peniche e o MH Peniche. O primeiro fica na Estrada do Baleal, virado para a Cova de Alfarroba. O segundo fica na Avenida Monsenhor Bastos, a poucos minutos da mesma praia. Ambos têm estacionamento próprio, o que em Peniche não é detalhe menor.
A localização dos dois diz mais do que as estrelas: ficam entre a vila e o Baleal, ou seja, do lado certo se o teu plano é entrar na água cedo na Baía. Se preferes ter os restaurantes da vila à porta ao fim do dia, dorme mais perto do centro.
Em termos de preço, contas com qualquer coisa entre 60 e 90 euros por noite em quarto duplo fora de época, e entre 120 e 180 euros em julho e agosto. Na semana da etapa do campeonato os preços sobem e a disponibilidade desaparece cedo, por isso se vais ver a prova reserva com meses de antecedência.
Em relação aos dois hotéis que te sugiro, por norma, eles são reservados para atletas e equipas técnicas durante o evento, por isso, se fores durante a prova, é bem provável que tenhas de escolher outro poiso.
Como chegar
De Lisboa é cerca de uma hora de carro pela A8. Há transporte público a servir a vila, mas em Peniche o carro é imprescindível, já que os picos estão espalhados.
Duração ideal · 3 a 4 dias chegam para apanhar duas ou três configurações diferentes de mar. Se vens de perto, um dia bem escolhido vale mais do que três dias mal calhados.
Melhor zona para ficar · entre a vila e o Baleal, se o plano é entrar na água cedo. Centro de Peniche se queres os restaurantes à porta ao fim do dia.
Custos médios · alojamento entre 60 e 90 euros por noite fora de época e entre 120 e 180 euros em julho e agosto. Estacionamento gratuito na maioria das praias.
Como chegar · cerca de 1h de carro desde Lisboa pela A8. Carro recomendado para circular entre picos.
Nível necessário · Peniche serve todos os níveis, desde que escolhas o pico certo. A Prainha para quem está a ganhar horas de água, a Baía para quem já surfa, o Lagido e o Molhe Leste para quem já tem nível, Supertubos só para avançados.
Melhor época · outubro a março para ondas com tamanho. Maio a setembro para aprender.
O que vestir · fato de 4/3 com botas no inverno, 3/2 no verão. Corta-vento para as manhãs de espera na praia.
Internet e conectividade · boa cobertura na vila e nas praias principais.
Dica final · vê a previsão de vento antes de decidires o pico. Em Peniche, a decisão certa toma-se na manhã do próprio dia.
Dados confirmados em agosto de 2026.
Este artigo abre uma série sobre os destinos do WCT, contada a partir do que consigo mesmo dizer sobre cada um. Nos que já surfei, digo o que sei. Nos que não, digo o que não sei.
Agora é a tua vez! Partilha nos comentários se já tiveste em Peniche ou se tens alguma pergunta sobre este destino de surf português.
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